terça-feira, 31 de maio de 2011

VELÓRIO E PALAVRAS



Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina”.  ITim 4:2



O velório é um local onde a realidade emite sua maior expressão. Lá encontramos os dois lados da vida, ela, propriamente dita, e seu final, a dura morte. Lugar onde faltam palavras e sobram emoções que se transformam em choros, tristezas e pesares. Por mais que se expresse solidariedade em forma de palavras, gestos, mas não se preenche o vazio que paira. Infelizmente.

Recentemente, certo pastor titular de uma das nossas igrejas, ao saber do falecimento de um ex-membro de sua congregação, foi ao velório prestar sua solidariedade e apoio a família, e, de alguma forma, despedir-se. Também, aproveitar o ensejo para tecer algumas palavras sobre a vida e o que vem depois dela. Um momento difícil para qualquer pregador, especialmente este, pois, aquele homem a bem pouco fazia parte da membresia de sua igreja e passara uma série de situações complicadas que abalaram sua saúde. Por outro lado, o pregador muito batalhou para restaurar-lhe não apenas a saúde física, mas também, a espiritual, e isto pesava consideravelmente.  Praticamente sozinho, o pastor chegou ao local onde estava sendo velado o corpo, cumprimentou a todos e na sequencia da chegada pode sentir um clima de hostilidade no ambiente. Familiares e amigos faziam-se presentes, pessoas dos mais variados costumes, alguns homens com opções de vida fora do normal, chamaram sua atenção, principalmente pelo comportamento e o modo de vestir. Quer queira ou não, era um momento de tensão. Todavia, firmado na certeza de levar a mensagem, e para tal pedira ajuda ao Senhor através de orações, o jovem pastor pediu a palavra e começou seu sermão com esta  passagem bíblica:

O homem que anda desviado do caminho do entendimento, na congregação dos mortos repousará”. (Prov. 21:16).

E continuou:

- “Nosso amigo aqui que jaz nesta urna, partiu antes do tempo. Ele com suas próprias mãos antecipou sua partida. Queira ou não, mas isto não deveria ter acontecido agora. Ele foi antes do tempo,  humanamente falando. Deus lhe proporcionou uma considerável melhora, mas, por motivos que nos fogem, deixou a congregação e retornou a antiga vida, voltando a costumes que  lhe agravaram a patologia que carregava”.

O  pastor prosseguia com sua fala,  quando em dado momento alguém no meio da multidão quase gritando falou:

“Pare de dizer estas coisas! Fale das coisas boas que o rapaz fez. Não se atenha a esse discurso”!

O pregador parou de falar e enquanto procurava saber de onde vinha a voz, um silencio tomou conta do ambiente. Alguns segundos se passaram que mais pareciam horas. Uma certa tensão se apossou do pastor. De sua posição, calmamente, passou a percorrer o ambiente com os olhos querendo saber de onde partira as palavras. Não demorou muito e visualizou a pessoa.  Tratava-se de um um cidadão que ultrapassara a meia idade, e também, um dos “amigos” do falecido,  que tantas vezes dividiu conversas e rodas de bebidas com ele. O silêncio permaneceu até que o pastor, dotado de firmeza, especialmente com a autoridade que Deus lhe deu, respondeu com clareza e objetividade:

“Só irei parar de falar se a família pedir que pare. Do contrário continuarei meu discurso”.

Novamente o silencio voltou. Agora era a expectativa tomava conta de todos esperando qual seria o desfecho. Com a bíblia aberta, o ministro aguardava uma resposta da família. Do lado contrário, o possível opositor baixara a cabeça, sua investida não lhe rendera o efeito esperado, sua arrogancia e prepotencia não abalaram o jovem pregador. Não demorou muito e uma voz masculina se fez ouvir, era um dos familiares.  Elevou a voz e disse que o pastor continuasse com sua pregação e depois voltou a repetir que não parasse, fosse até o fim. O sermão foi retomado, pautado no propósito de Deus para o homem e o que vem após a morte. Palavras claras, mas impactantes que chegava aos ouvidos e corações dos ouvintes. Diferentemente do que é mais comum em velórios, recheados de ladainhas, rezas, cantigas, paisagens e mensagens bonitas. O pastor sentia o peso no semblante de cada um, porém, não mediava com as palavras, falava o que pedia seu coração. Mencionou sobre a decisão do homem que iria ser sepultado e que num momento único rendeu sua vida a Cristo. Falou das mudanças em sua vida e por fim citou estes versículos:

“Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. Pois neste tabernáculo nós gememos, desejando muito ser revestidos da nossa habitação que é do céu, se é que, estando vestidos, não formos achados nus. Porque, na verdade, nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos oprimidos, porque não queremos ser despidos, mas sim revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu como penhor o Espírito.”  (2Cor 5:1-6).

Terminando este relato, que também não deixa de ser uma reflexão, louvo e agradeço ao Senhor, pela vida deste pastor. Por sua coragem e intrepidez, pelo modo e o momento, estando sozinho falou com autoridade e expos com segurança a Palavra de Deus. Que Deus o abençoe e que ações como estas o acompanhem em seu ministério.



Ir. Cavalcanti – IBR Valentina.

31.05.2011

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